A maior burla política da nossa história democrática

5/8/2024

A yellow sticker on a weathered metal pole featuring bold black text that appears political in nature. The background shows an urban environment with blurred buildings and a street.
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Não vai acreditar, mas é verdade: quase todos os analistas, comentadores e políticos apoiam o Chega. A burla não está nos que o fazem abertamente – esses, ao menos, dizem ao que vêm; a burla é cometida pela maioria encapotada da intelligentsia de esquerda.
Tese absurda? Como é que explica então que continuem a defender um cordão sanitário ao partido? Ao diabolizarem-no legitimam-lhe a narrativa de que o sistema está podre e aumentam-lhe a base de apoio. A intelligentsia sabe que é este o resultado – basta olhar para as últimas quatro legislativas – fá-lo em consciência. A outra hipótese é a intelligentsia não perceber que ostracizar o partido é dar-lhe força. Portanto, a intelligentsia ou é burlona ou é inapta. Venha o diabo e escolha.
Lamentemos ou não os resultados eleitorais, o facto é que o Chega é a segunda força política. Na legislatura anterior as tentativas de entendimento entre a AD e PS falharam; nessa altura era legítimo, embora míope, que se dessem entre AD e PS, por serem a primeira e a segunda força. Agora não são – o diálogo desta vez tem de ser entre AD e Chega. O país mudou: a direita tem agora mais de dois terços dos deputados. Se a AD mantiver a postura de que “não é não”, desrespeita a vontade dos eleitores, o que é antidemocrático. Além disso evidencia tiques de superioridade moral politicamente desastrosos – o colapso do BE, o moralizador-mor, deveria servir como conto de advertência. A AD tem de se libertar da influência moralista da esquerda, que a convenceu que dialogar com o Chega é vender a alma ao diabo; tem de encetar acordos, a bem da estabilidade e do interesse nacional.
Excluir o Chega de uma solução governativa é também um tiro no pé, porque desprezá-lo é reforçar-lhe os resultados nas próximas legislativas; ou a AD não percebe isto, ou percebe e é isso que quer. Repito-me: preferem uma AD incompetente ou uma AD ao serviço do Chega?
A melhor forma de a AD evitar que o Chega seja governo é retirando-lhe o estatuto de partido antissistema: envolvê-lo na governação, seja como parceiro de governo seja num acordo formal de incidência parlamentar. Isto retira-o simultaneamente da liderança da oposição, o que só pode ser um alívio para Montenegro. Perante o convite, o Chega ou aceita ou recusa. Se recusa, o que é provável, porque Ventura quer chegar sozinho ao poder e porque sabe que a conjuntura internacional vai trazer um abrandamento impopular à economia, a AD deve atacar em força, acusando-o de ser mentiroso e indiferente aos problemas dos portugueses, porque prometeu ser solução e à primeira oportunidade descartou-se. O Chega perde assim uma das suas narrativas mais queridas: a de que o bloco central lhe bloqueia o acesso ao poder. O Chega tem, por isso, de aceitar o convite. Aceitando, temos duas hipóteses: ou a coisa corre bem, e o país cresce, ou corre mal, e o país estagna.
Se o país melhora, a AD ganha – soube ouvir o eleitorado e priorizou os interesses dos portugueses; o Chega pode crescer, ao partilhar a responsabilidade pelos bons resultados, mas também pode cair, por sair normalizado e perder o apoio dos que ainda votam nele como protesto.
Se o país piora, o Chega sai mal na foto; basta a AD atirar-lhe para cima as culpas dos males económicos; argumentar que quando chegou o momento de ajudar a governar o Chega não esteve à altura, que quando foi posto à prova falhou. Isto esvaziar-lhe-ia a aura sebastianista.
Claro que não há coragem política ou maturidade democrática para procurar um entendimento com o Chega. A AD vai, por isso, seguir uma de duas vias. A menos exequível é encetar conversações ora com o PS ora com o Chega. Não resulta, porque assim que negociar com um dos dois o outro abandona o diálogo alegando que essa negociação viola o seu programa. A hipótese mais provável é, portanto, a AD voltar a procurar acordos com o PS. Dado o momento do PS, os próximos OE serão aprovados – pelo menos o de 2026 e o de 2027. Mas com a reorganização interna do partido, somada à improbabilidade da AD conseguir manter-se longe de crises políticas, o OE de 2028 provavelmente já não passa. Voltamos, portanto, a ter uma legislatura que não chega ao fim, com um Chega reforçado – porventura a ganhar as eleições seguintes. O Chega no governo será a ruína das contas públicas, considerando a visão fantasiosa de esquerda despesista que tem para a economia. Não será o fim da democracia, apenas Maio de 2011 de novo.